A morte é historicamente um tabu. Em muitas culturas, é assunto evitado a todo custo. Mas o custo do silêncio é alto. A temática da “morte voluntária como escape do sofrimento”, como no caso do suicídio, encontra ainda mais estigma e dificuldade de abordagem.

Porém, em 2017, o Centro de Valorização da Vida (CVV) começou a registrar um crescimento acentuado na quantidade de contatos com pedidos de informação e ajuda. Os contatos diários aumentaram mais de cinco vezes. Isso significa que passou de uma média de 55 para 300. No site, os acessos pularam de 2,5 mil ao dia para 6,7 mil. O número de ligações dobrou, muitos delas acionadas por adolescentes com sintomas depressivos e pensamentos suicidas.

https://www.youtube.com/watch?v=P6_uTHAAKb0&feature=youtu.be

Vários desses jovens citaram, como gatilho para o contato, o seriado 13 Reasons Why, da Netflix. A série repercutiu e teve um efeito que especialistas consideram positivo: chamou a atenção para um problema extremamente sério e que com frequência passa despercebido, abrindo caminho para que as pessoas estejam atentas a sinais de risco e que busquem auxílio.

De maneira alarmante, soma-se a esses números a informação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) de que, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo.

Infelizmente são 800 mil suicídios por ano, dos quais 65 mil acontecem na região das Américas. Dessa forma, não é apenas uma questão de Saúde Mental, mas também de Saúde Pública. Chega a ser considerado uma epidemia entre os adolescentes, que necessitam de atenção e ações efetivas para evitar a fatalidade. Sua incidência é alta e constante, com índices semelhantes com os vítimas de doenças crônicas, como o câncer.

O Brasil está entre os países que assinaram o Plano de Ação em Saúde Mental (2015/2020) lançado pela OPAS/OMS. Esse plano vai acompanhar o número anual de suicídios em cada país e o desenvolvimento de planos de prevenção. Ou seja, a maioria dos casos de suicídios podem ser evitados, e a informação sobre o assunto faz parte desse processo.

Entretanto, as informações não devem ser exploradas de forma sensacionalista, dando visibilidade a detalhes mórbidos que possam inspirar a repetição do gesto fatal. Isso é o que chamamos de EFEITO WERTHER – refere-se a um aumento do número de suicídios depois de um suicídio amplamente divulgado. O nome se deve ao romance Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774), do alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Contudo, a própria OMS recomenda enfaticamente a veiculação através da mídia de informações que ajudem na prevenção do suicídio. “A disseminação de informação educativa é elemento essencial para os programas de prevenção; nesse sentido, a imprensa tem um papel relevante” (Manual de Prevenção do Suicídio Dirigido aos profissionais de imprensa pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde).

Sendo assim, podemos nos direcionar por outro fenômeno, o EFEITO PAPAGENO: a mediação que, ao invés de provocar o efeito de imitação do suicídio, tem um efeito de salvação e prevenção. Na ópera de Mozart, a “ Flauta Mágica”, três seres encantados salvaram a personagem Papageno e o demoveram de tirar a própria vida.

Ou seja, é possível produzir uma cobertura midiática que, ao invés provocar a imitação de um ato suicida, seja capaz de alertar para a necessidade de valorização da vida e prevenção de suicídio.

Outro ponto importante na prevenção a ser discutido é o saber ouvir, e mais importante é estar disponível para tal. E foi dessa forma que o CVV consolidou seu papel na prevenção do suicídio. Realizam apoio emocional atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar. Sob total sigilo, por telefone, email, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o Centro de Valorização da Vida (CVV), em parceria com o SUS, por meio do número 188, são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar o site para chamar no chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

A valorização da vida em segundo plano

Se o tema do suicídio é tabu em muitos ambientes e culturas, imagine em um momento histórico em que é muito cultivado um discurso que busca afastar qualquer vestígio de sofrimento e fragilidade. Discurso esse que não condiz com o que realmente vivemos em nossa jornada. Tantas vezes permeada pela dor, estigma, vergonha, impotência, dificuldade em compreender os fenômenos da saúde mental e as distorções teológicas que não abrem espaço para o diálogo.

Como seres humanos, não estamos imunes aos sofrimentos psíquicos e angústias da alma. Temos dificuldade em abordar questões emocionais, da subjetividade, que por tantas vezes nos parecem inacessíveis e inomináveis. Os sofrimentos de ordem psíquica mostram-se multifatoriais, sejam desequilíbrios químicos, aspectos biológicos, socioculturais e até mesmo “religiosos”.

Mas como sociedade, precisamos incentivar o diálogo para auxiliar na prevenção desta questão do suicídio. Além disso, tantas outras que assolam a saúde emocional de pessoas de todas as idades, classes sociais e crenças.

Precisamos de uma rede de amigos e que estejam atentos para discernir os sinais de adoecimento psíquico e fatores de risco. Que respeitem as fragilidades, que caminhem na direção do outro com acolhimento. É importante pontuar que precisamos reconhecer nossos limites.

Precisamos de abertura às parcerias e encaminhamentos. Assim, agregando todos os recursos possíveis nas diferentes áreas de conhecimento e atuação para que o cuidado seja integral. Somos seres bio-psico-sociais-espirituais e precisamos cuidar de todos estes aspectos que compõe o todo.

Mais importante que rastrear as causas desse problema com pesquisas, seminários e congressos científicos, é preciso apoiar e divulgar o quanto é importante a valorização da vida, acolher e falar sobre suicídio.

Convidamos acadêmicos e comunidade em geral para participar de uma conversa franca sobre este tema.

Valorizando a Vida – sinais de alerta e estratégias de prevenção de suicídio.

Acesse o conteúdo do Webinar aqui.

 

 

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