Lugar de mulher? Na sala de aula, empresas, laboratórios e investindo em si mesma

Lugar de mulher é onde ela quiser. Certamente você já ouviu isso em algum momento. E é mesmo. Transformações culturais, conquista de direitos e investimentos em educação, explicam o aumento da participação feminina no mercado de trabalho brasileiro. Dedicando-se mais aos estudos, especialmente no ensino superior, elas se tornaram mão de obra mais qualificada e o reflexo é a maior ocupação no mundo corporativo.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), até 2030,
64,3% das mulheres com idade entre 17 e 70 anos estarão empregadas ou buscando trabalho, muito diferente do início dos anos 90, quando eram apenas 56,1%. Com isso, a participação masculina tem sofrido redução, passando de 89,6% para 82,7%. E é possível afirmar que essa contração se agrave ainda mais. As projeções baseiam-se nos resultados da Pesquisa Pnad Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

William Matos, pró-reitor da Educação a Distância da Unicesumar, destaca que a mulher não só busca conquistar mais espaço, como se prepara mais para isso. “Partindo da premissa de que o mercado passou a exigir cada vez mais qualificação, as mulheres levam vantagem e acabam substituindo os homens em algumas funções. Porém, ainda são maioria na informalidade e minoria em cargos de liderança”.

Na instituição, elas representam 56% do total de 200 mil alunos matriculados. A maioria ainda está em cursos na área da educação, como Pedagogia, por exemplo. No entanto, elas também estão ocupando espaços antes essencialmente masculinos, como a área das engenharias e tecnologias.

Mesmo trilhando um caminho repleto de desafios, ele lembra que, independentemente da área, o mais importante é o ato de pensar e de criar soluções para problemas reais. “A mulher exerce um papel muito importante no mercado de trabalho, especialmente por ser mais detalhista e executar múltiplas tarefas ao mesmo tempo. Não que os homens não tenham essas qualidades, mas essas características nas mulheres são mais naturais. Com isso, elas avançam cada vez mais”.

A importância da mulher em diferentes áreas

Avançar é o que inspira a piauiense Anne Galdino. Bacharela em Ciências da Computação, é uma apaixonada pela tecnologia desde a infância. “Esse foi um dos motivos pelos quais escolhi o curso e que optei por trabalhar na área de desenvolvimento de sistemas por quatro anos na iniciativa privada, antes de ser aprovada em um concurso público. Sempre fui acostumada a trabalhar em uma área masculina, pois raramente vemos mulheres na tecnologia”.

E nem os comentários machistas, apontados por ela como constantes no dia a dia, a impediram de seguir, avançar e desbravar outra área ainda mais inusitada: a produção cervejeira. “A inspiração veio em um Ano Novo, quando eu e meu marido buscávamos algo diferente dos tradicionais espumantes. Provamos algumas cervejas especiais e foi aí que surgiu uma nova paixão e um novo caminho. Para mim, a persistência nos leva ao que queremos. Algo não deu certo? Caiu? Levanta e segue, pois é persistindo que se chega ao objetivo. Eu cheguei a um dos meus, conquistei meu espaço e venci um famoso concurso de Mestre Cervejeiro”.

E se a conquista pelo espaço é um desafio, Patrícia Morais, de Campinas (SP), é uma inspiração. Motorista de ônibus durante 15 anos, foi a única mulher a dirigir um BRS (ônibus biarticulado) na cidade do interior paulista. Formou-se em Gestão de Pessoas, especializou-se em Gestão de Trânsito e depois de tudo isso, ainda resolveu cursar engenharia. Atualmente no terceiro ano, concilia as aulas presenciais e a distância (modalidade chamada de híbrida), com outros dois cursos: Psicanálise e Teologia.

Graças à engenharia, Patrícia já desenvolveu um produto ligado ao mercado pet que já está em produção por uma empresa da cidade e, em breve, será lançado para o mercado. “É preciso muita disciplina e força de vontade. Quando comecei, descobri que não sabia nada de matemática, mas busco aprender mais a cada dia. Felizmente optei por uma modalidade que me permite conciliar a vida profissional, com a particular por um custo muito menor e com mais tempo para estudar e aprender”, conta.

Tendências e oportunidades de participação feminina

E talvez sem saber, a estudante se antecipa a uma tendência apontada pela consultoria empresarial americana McKinsey. Ela que prevê transições na era da automação, principalmente no que diz respeito à mão de obra feminina. Segundo o estudo, muitos dos trabalhos como atendimento ao cliente, caixas de supermercado e secretariado, serão automatizados. Nesse sentido, há uma nova perspectiva para as áreas das Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, na qual a participação feminina é ainda relativamente baixa. “É uma oportunidade para ocuparmos um espaço que pode ser mais feminino no futuro”, reflete.

Se o futuro está associado à evolução, já existem sinais de mudanças. Ainda de acordo com a pesquisa do Ipea, em 2004, as mulheres ganhavam 70% do que recebia o homem; em 2005, 71%, parcela que permaneceu até 2009, chegando a 76,8% em 2014 e 79,5% em 2018. Não existem projeções para os próximos anos, mas as perspectivas são boas, segundo os especialistas.

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